O chamado

Nunca foi fácil ouvir a mensagem da fé. Em nossos dias, estamos geralmente tão ocupados com problemas da existência terrena que simplesmente não temos tempos para ouvir a essa mensagem e refletir sobre Deus. Para alguns, a religião reduziu-se a celebrar o Natal e a Páscoa, e observar uns poucos costumes por medo de ser 'afastado de suas raízes'. Outros não vão à igreja de modo algum porque estão 'muito ocupados'. 'Ele estão focado em seu trabalho', 'trabalho é tudo para ele', 'ele é um homem ocupado'. Esses são alguns dos melhores cumprimentos que alguém pode receber de amigos e colegas. 'Pessoas ocupadas' são um tipo peculiar aos tempos modernos. Nada existe para elas além da preocupação de engole-os completamente, não deixando lugar ao silêncio no qual pode-se ouvir a voz de Deus.

Entretanto, por mais paradoxal que pareça, apesar do barulho e confusão de hoje, ainda é possível ouvir o misterioso chamado de Deus em nossos corações. Esse chamado pode nem sempre ser percebido como a voz de Deus. Pode surpreender-nos como um sentimento de insatisfação ou cansaço interior, ou como o começo de uma busca. Para muitos, é apenas após a passagem dos anos que entendem como suas vidas foram incompletas e inadequadas sem Deus. 'Fizeste-nos para ti, Senhor', diz Santo Agostinho, 'e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti'. Sem Deus nunca poderá haver plenitude de ser. Portanto, é crucial para nós sermos capazes de ouvir e responder à voz de Deus no momento mesmo em que Deus fala, e não anos depois. Se alguém identifica e responde ao chamado de Deus, isso poderá mudar e transfigurar toda sua vida.

O que é fé?

Fé é um caminho de encontro entre nós e Deus. É Deus quem dá o primeiro passo: ele acredita plenamente e incondicionalmente em nós e dá-nos um sinal, algo que possibilite uma tomada de consciência de sua presença. Nós ouvimos o misterioso chamado de Deus, e nosso primeiro passo em direção a um encontro com ele é uma resposta a esse chamado. Deus pode chamar-nos abertamente ou em segredo, ostensiva ou veladamente. Mas é difícil para nós crer nele se não atentarmos primeiramente ao seu chamado.

A fé é um mistério e um milagre. Por que uma pessoa responde ao chamado, enquanto outra não? Por que um é aberto a receber a voz de Deus, enquanto outro permanece surdo? Por que, tendo encontrado Deus, um abandona imediatamente tudo para segui-lo, enquanto outro volta atrás e toma um caminho diferente? 'E Jesus, andando junto ao mar da Galiléia, viu a dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão, os quais lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores; e disse-lhes: Vinde após mim (...). Então eles, deixando logo as redes, seguiram-no. E, adiantando-se dali, viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e João (...); e chamou-os; eles, deixando imediatamente o barco e seu pai, seguiram-no' (Mt 4:18-22).

Qual segredo enconde-se atrás da prontidão dos pescadores galileus em abandonar tudo para seguir Jesus no primeiro encontro? Por que, por outro lado, o jovem rico, que também ouviu o 'Venha e siga-me' de Cristo, não abandonou tudo para ele, mas ao contrário 'foi embora triste' (Mt 19:21-22)? Será, talvez, porque aqueles eram pobres, enquanto o jovem 'tinha grandes posses'? Os primeiros nada tinham além de Deus, enquanto o segundo tinha 'tesouro na terra'.

Cada um de nós tem tesouros na terra, seja na forma de dinheiro ou posses, um emprego satisfatório ou bem-estar material. Mas o Senhor diz: 'Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o reino dos céus' (Mt 5:3). No Evangelho de São Lucas, essa afirmação é posta mais simples e direta: 'Bem-aventurados sois vós, pobres, pois vosso é o reino dos céus' (Lc 6:20). Bem-aventurados são aqueles que entendem que, embora possam ter muitas coisas, na verdade não são donos de nada. Bem-aventurados aqueles que entendem que nenhuma aquisição terrena pode substituir Deus. Bem-aventurados aqueles que vendem toda sua riqueza para adquirir a pérola de grande valor (cf. Mt 13:45-46). Bem-aventurados aqueles que sabem que sem Deus são pobres, que estão sedentos e com fome por ele com toda sua alma, mente e vontade.

Introdução: dogma e espiritualidade

Em nossos dias, há uma visão muito comum de que dogmas religiosos não são compulsórios, mas secundários: mesmo que tenham certo valor histórico, não são mais vitais para os cristãos. Agendas morais e sociais tornaram-se a principal preocupação de muitas comunidades cristãs, enquanto questões teológicas são frequentemente negligenciadas. A dissociação de dogma e moralidade, entretanto, contradiz a própria natureza da vida religiosa, que pressupõe que a fé deve sempre ser confirmada por atos, e vice-versa. Enfatizando isso, São Tiago diz: 'Fé sem obras é morta' (Tg 2:26). São Paulo, por outro lado, alega que 'o homem é justificado pela fé sem as obras da lei' (Rom 3:28). Por 'obras da lei' ele se referia aos ritos e sacrifícios do Antigo Testamento, os quais não são mais necessários após o sacrifício de Cristo pela vida do mundo. Boas ações são necessárias e essenciais, mas quando separadas da fé não são capazes, de si mesmas, de salvar a pessoa humana: somos justificados pela fé, mas por uma fé que é acompanhada da vida moral.

Não menos estranha ao cristianismo é a dissociação de dogma e misticismo, ou doutrina e espiritualidade, ou teologia e vida espiritual. Há uma interdependência essencial entre dogma e misticismo: eles são inseparáveis e ambos, de modos diferentes, levam ao conhecimento da verdade. 'Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará', diz o Senhor (Jo 8:32), que é ele próprio a Verdade, o Caminho e a Vida (Jo 14:6). Cada dogma revela a verdade, abre o caminho e comunica vida.

A teologia não deve contradiz a experiência religiosa, mas sim proceder dela. Assim tem sido a teologia dos Padres da Igreja por vinte séculos - desde São Paulo e Santo Inácio de Antioquia até São Teófano o Recluso e São Siluan do Monte Athos.

Fundada sobre a experiência espiritual, permanecendo longe do racionalismo e do escolasticismo, a teologia ortodoxa é uma entidade viva hoje tanto quanto centenas de anos atrás. As mesmas questões tem sido confrontadas pela pessoa humana: O que é a verdade? Qual o sentido da vida? Como encontrar alegria e paz de coração? Qual o caminho da salvação? O cristianismo não pretende resolver tudo pela resposta de todas as questões que o espírito humano levantar. Uma vez que essa realidade é encontrada, a pessoa humana deixa para trás suas questões e desorientação, pois sua alma achou contato com a Divindade e caiu silenciosamente na presença do Mistério que nenhuma palavra humana pode expressar.