A origem do mal

Na aurora da vida antes da criação do mundo visível por obra de Deus, mas após a criação dos anjos na esfera espiritual, ocorreu uma catástrofe de dimensões cósmicas, que conhecemos apenas por suas consequências. Uma parte dos anjos se rebelou contra Deus, se separando dele e tornando-se hostil a tudo que é bom e santo. À frente da milícia desses anjos caídos, está Lúcifer, cujo nome (literalmente 'o que traz a luz'), mostra que ele era bom no começo, mas em razão da sua própria vontade voltou-se contra o Criador, e em sua liberdade e por sua própria decisão, tomou para si o direito de ir contra a lei e assim se desligar daquele que o criou, e neste afã, se tornou o primeiro a escolher o mal entre o Bem. Lúcifer, também conhecido como diabo e satanás ('divisor', 'separador'), pertencia a uma das ordens mais elevadas da hierarquia angélica. Ele levou outros anjos em sua queda, como ilustrado figuradamente no Apocalipse: 'Caiu do céu uma grande estrela ardendo como uma tocha... e a terça parte das estrelas caiu' (8:10-12). Alguns comentadores dizem que um terço dos anjos caiu juntamente com o diabo.

O diabo e os demônios foram mergulhados na escuridão por sua própria vontade. Todas as criaturas vivas e racionais, anjos ou homem, receberam de Deus o livre-arbítrio, ou seja, o direito de escolher entre o bem e o mal. O livre arbítrio foi dado para que na vida, se fazendo o bem, ele pode comunicar-se ontologicamente a um ato próprio do ser, ou em outras palavras, não sendo um presente que é dado, mas torna-se uma responsabilidade de cada um. Se uma tal imobilidade tivesse sido imposta por Deus, de forma inevitável, nenhum ser vivo não poderia ser uma criatura livre em si mesma. 'Ninguém jamais se tornou bom sob pressão', diz São Simeão, o Novo Teólogo. 

O ensino sobre a separação de Deus deliberadamente provocada pelo diabo é uma resposta à eterna questão de toda a filosofia sobre a origem do mal. O problema da origem do mal surgiu com grande acuidade no pensamento teológico cristão, porque é constantemente confrontado com as teorias dualistas, ou seja: as doutrinas filosóficas que defendem a existência de dois princípios de igual força - um bom e um mau – existentes no mundo desde a sua origem, e que permanecem existindo até os tempos de hoje. 

O pensamento cristão não está expresso nestes termos sobre a natureza e a origem do mal. O mal não é algo original, co-eterno e igual a Deus. Não é possível falar dele em termos de 'ser', porque ele não existe por si só. Como a escuridão ou a sombra não são realidades independentes, mas são apenas a ausência de luz, o mal é a ausência do bem. Tudo o que Deus criou, os anjos, os homens e o mundo material, tudo foi criado intrinsecamente bom.

Mas os seres racionais (os anjos e os homens) recebem o poder de exercer sua própria vontade, e eles tem a oportunidade de levar essa liberdade até mesmo contra Deus e, assim, causar danos. Foi o que aconteceu: O 'portador da luz', originalmente criado bom, optou pelo mau uso de sua liberdade, desfigurando a sua própria natureza, e assim se afastou da Fonte do Bem.